Há quem questione se o Brasil ainda é o país do Futebol. O que não se discute é que somos uma terra que produz grandes locutores esportivos. Gente capaz de transformar um simples jogo de bola numa disputa épica, eletrizante, cujo ponto culminante é o momento do gol, invariavelmente gritado a plenos pulmões. Essa arte que mistura emoção, criatividade e gogó ainda é capaz de atrair uma legião de ouvintes em plena era digital. Oscar Ulisses não está somente entre os maiores nomes do microfone esportivo brasileiro. Ele carrega um legado. Seus irmãos e um primo são também narradores. Oscar é irmão de Osmar Santos, o cara que revolucionou as transmissões de Futebol no País a partir do final dos anos 1970. Oscar se apaixonou pelo rádio e pela narração por causa do irmão mais velho. E se mantém à frente da tradição familiar desde o acidente que afastou Osmar dos microfones, em dezembro de 1994. Na entrevista a seguir, Oscar Ulisses relembra as primeiras transmissões no interior de São Paulo, as passagens pelas maiores emissoras de rádio do País, fala do cotidiano das transmissões pelo microfone da Rádio CBN, do qual é o titular, e, claro, da convivência com Osmar. “Até hoje ele é o meu chefe”, admite.
Oscar, com o irmão Osmar Santos, a sua maior influência
Pinheiros Osmar Santos, seu irmão mais velho, e Odnei Edson, seu irmão mais novo, são locutores. O Ulisses Costa, seu primo, também. O que explica esse fenômeno de locutores na família? É alguma coisa na água de Osvaldo Cruz (cidade do interior de São Paulo) onde vocês nasceram?
Oscar Ulisses – É tudo culpa do Osmar. Ele tinha uma afinidade tão grande com comunicação, com o rádio, uma relação muito parecida que alguns têm com remédio, os hipocondríacos. Quer dizer, não basta tomar o remédio, você tem de fazer o outro tomar também. Então, o Osmar foi para o rádio e levou com ele muita gente. Da família e fora da família. De fora ele levou o Eder Luiz (narrador da Rádio Transamérica), o Oswaldo Maciel (narrador da 105 FM) e muitos outros que não vou lembrar agora.
Pinheiros Ele foi o responsável por sua estreia no microfone, certo?
Oscar Ulisses – Eu tinha 12 anos, na época. O Osmar organizou um torneiro de Futebol dente de leite em Marília (cidade do interior de São Paulo). Eu iria jogar em um dos times. Mas aí ele me colocou pra narrar alguns jogos. Jogos de crianças narrados por crianças, essa era a ideia. O Osmar sempre foi criativo.
Pinheiros E você já sabia narrar aos 12 anos?
Oscar Ulisses – O Osmar é oito anos mais velho do que eu. Ele começou a trabalhar em rádio na adolescência. Narrava tudo. E a gente imitava, pegou a mania também. Eu narrava o que acontecia no restaurante, o movimento das nuvens, o jogo de botão. A gente narrava o almoço servido em casa, era um falatório sem fim. Lembro que o meu pai ficava irritado com tanto barulho. Ele não era fanático por rádio nem gostava de Futebol. Morávamos numa fazenda em que meu pai era o administrador. A gente não tinha televisão, mas tinha o radinho de pilha pra escutar jogos. Entrei no rádio pela mão do Osmar e foi ele que me levou para São Paulo.
Pinheiros Como isso aconteceu?
Oscar Ulisses – Meu pai tinha uma terrinha no Paraná, em Cruzeiro do Oeste, e nos mudamos para lá. Nessa altura, o Osmar já estava em São Paulo, tinha estourado, era um sucesso. E eu comecei a trabalhar na rádio de Cruzeiro do Oeste, onde fomos morar. Aí, o filho do dono dessa rádio comprou uma outra, em Londrina, e me chamou para ir com ele. Em Londrina, eu fazia de tudo: narração de jogo de Futebol, apresentava programa musical, fui até ator de radionovela. Aí, um dia, o Osmar apareceu em Londrina, me viu lá meio perdidão e decretou: “Faz as malas. Você vai para São Paulo comigo estudar e trabalhar”. Deu aquela intimada e eu fui.
Pinheiros A gente pode dizer então que a sua formação em rádio é a de um autodidata, com um ótimo exemplo.
Oscar Ulisses – Totalmente. Em São Paulo, fiz faculdade de Jornalismo, também fiz um tempo de Psicologia, mas essa não terminei. O aprendizado em rádio foi na raça, do melhor jeito. Sempre gostei muito de rádio, desde garoto. Adorava o Fiori Giglioti (histórico locutor da Rádio Bandeirantes) e aquele jeito poético como ele narrava os jogos: “Abrem-se as cortinas e começa o espetácul”. Mas, quando o Osmar estourou na Jovem Pan, com aquele pique elétrico, nervoso, de transmitir o jogo, os bordões, todos os outros narradores ficaram subitamente antigos. Tive vários professores de rádio e um grande professor, que foi o Osmar. Ele me abriu portas. Mas chegou um momento em que tive de sair da sombra dele para poder crescer.
Pinheiros Quando foi isso?
Oscar Ulisses – Vim para São Paulo e fui trabalhar com o Osmar na Jovem Pan. Ficava fazendo matérias, ajudando, consegui narrar uns dois jogos, que era o que eu queria mesmo fazer. Mas aí surgiu um convite para ir trabalhar na Rádio Bandeirantes, com o Fiori Giglioti, e eu fui. O Osmar entendeu e deu a maior força.
Pinheiros E que tal a experiência de trabalhar com um ídolo?
Oscar Ulisses – Foi muito bacana. Além do Fiori, encontrei todos os caras que escutava quando era criança. Aprendi muito com o Fiori, ele foi um grande parceiro. Eu o enxergava como um mito, intocável, quase santo, o gigante de falas poéticas, até o dia em que ele soltou um “pqp” no meio de uma conversa. “Nossa, ele também fala palavrão”, lembro de ter pensado, o que ajudou a humanizar a sua figura. Depois da Bandeirantes, fui para Rádio Globo, em 1977, como um dos narradores da equipe que era chefiada pelo Osmar.
Pinheiros Os narradores brasileiros são conhecidos pelos bordões. O Osmar tinha vários, assim como o Fiori Giglioti, o Silvio Luiz. Mas, você, curiosamente, tem um estilo mais comedido.
Oscar Ulisses – Os bordões, sem dúvida, são a marca dos narradores brasileiros. O Osmar era uma máquina de criar bordões. Mas eles precisam soar de forma natural para quem os faz, tem de ser uma coisa confortável. Não dá pra forçar a barra. Tenho um ou outro bordão, mas não é muito o meu estilo.
Pinheiros Nesses mais de 50 anos de rádio, alguma vez aconteceu de ter de enfrentar a fúria de torcedores por alguma coisa dita no ar?
Oscar Ulisses – Teve uma vez em Bragança Paulista (cidade do interior de São Paulo). Estava transmitindo um jogo com o Paulo Roberto Martins, que fazia os comentários. A cabine onde estávamos era aberta e ficava bem em cima da torcida do Bragantino. O Paulo Roberto começou a discutir com um torcedor local e logo virou um bloco de gente contra ele. O clima esquentou. Os caras começaram a xingar, a atirar um monte coisas na cabine: laranja, chinelo, radinho, pilha… Tive de abaixar pra não ser atingido e não conseguia narrar o jogo. “Tá louco, Paulo? Para com isso! É você sozinho contra esse povo todo aí”, falei. E, aí, o Paulo me responde: “Sozinho, não. Somos dois!”. Aquele dia foi difícil ir embora pra casa…
Pinheiros Hoje, com a revolução digital, o predomínio da imagem, o grande acesso à transmissão das partidas, com quem o rádio fala? Para quem você narra?
Oscar Ulisses – É aquele cara que está no carro. Também tem muita gente que sintoniza via internet, principalmente fora do Brasil. E tem o radinho mesmo. O radinho ainda é forte. A verdade é que a internet botou as coisas de cabeça para baixo. Ainda recebo jornal impresso em casa. É mais pelo hábito, porque a gente se informa mesmo pela internet. E tem esse fenômeno das redes sociais, em que todo mundo virou produtor de conteúdo. Como disse o Umberto Eco (escritor e filósofo italiano), as redes sociais deram voz ao boteco.
Pinheiros Você acha que o rádio é uma mídia ameaçada?
Oscar Ulisses – Acho que não. O tempo vai determinando as mudanças necessárias para cada veículo. Transmiti Fórmula 1 durante 20 anos pelo rádio sempre com audiência e repercussão. E, veja, automobilismo é essencialmente imagem. A verdade é que o rádio tem uma característica imbatível. Todo veículo de comunicação, qualquer um, exige atenção exclusiva do usuário. Você tem de largar o que está fazendo para ler o jornal e a revista, para usar a internet, para ver televisão. O rádio é o único que não exige essa exclusividade. Você pode escutar rádio e continuar com a sua atividade. Pode cozinhar, namorar, praticar esporte e continuar ouvindo rádio. Essa é uma característica que só ele tem. Então, isso dá ao rádio uma longevidade interessante. Por isso, não o considero ameaçado. É essa característica que explica o sucesso que os podcasts estão fazendo.
Pinheiros Como é que se aprende a narrar Fórmula 1?
Oscar Ulisses – Eu trabalhava na Rádio Bandeirantes. E o Flávio Araújo, que era o narrador da F1, entrou em férias. Aí fui escalado pra fazer o GP da Argentina. Fui uma semana antes pra lá, me mudei para o autódromo, fiquei respirando aquele clima e tive a sorte de ter como comentarista um ex-piloto, o Edgar de Melo Filho, que me deu dicas preciosas. Peguei a F1 ainda quando não havia toda essa tecnologia, os tempos eram cronometrados à mão. Depois, ficou bem mais fácil, a gente passou a ter mais informação para trabalhar.
Pinheiros O que está acontecendo com o Futebol brasileiro, com a nossa Seleção?
Oscar Ulisses – Acho que temos uma quantidade menor de jogadores de qualidade. Dos que vêm sendo convocados para a Seleção Brasileira, quais seriam titulares em outras grandes seleções? Acho que nenhum. E talvez o problema tenha a ver também com um fenômeno que o Miguel Nicolelis, o neurocientista, chama de brainet. Os torcedores em um estádio, por exemplo, compartilham uma sensação de pertencimento, que transforma aquele monte de cérebros numa espécie de rede única que pulsa na mesma vibração, com o mesmo objetivo. Um time de futebol tem isso. Acho que os nossos jogadores que vão para a Europa perdem esse vínculo, essa sensação de pertencimento. Quando se juntam na seleção não têm um vínculo maior, a cola fica frágil. Mas é só um palpite.
Pinheiros E tem jeito de recuperar o Futebol brasileiro?
Oscar Ulisses – Estamos numa crise. Se a gente começar a vencer começa a ter saída. Mas e para vencer?
Pinheiros E como você costuma aproveitar o Clube?
Oscar Ulisses – Quem me deu o título do Pinheiros foi o Osmar. Moro ao lado do Clube, o meu escritório também é próximo, assim como a casa da minha filha. Tá todo mundo ao redor do Pinheiros. Joguei bola por um bom tempo, mas uma arritmia me tirou de campo. Hoje costumo correr, vou ao restaurante, à sauna. A minha mulher também é associada e já foi conselheira.
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