O bigode que iniciou uma revolução global na saúde masculina

O bigode que iniciou uma revolução global na saúde masculina

30/10/2025 30/10/25

Por Renato Panhoca 


Como médico urologista, digo que o Novembro Azul vai muito além da conscientização — é na verdade um convite à ação e à compreensão profunda sobre a promoção da saúde masculina.

A história do Novembro Azul, ou Movember, é tão inspiradora quanto seu impacto. História essa que começou na Austrália, no início dos anos 2000, quando dois amigos, em uma conversa descontraída, percebendo a lacuna na discussão sobre a saúde masculina e motivados pela luta de um familiar contra o câncer, decidiram propor um desafio: deixar o bigode crescer durante o mês de novembro para iniciar conversas sobre esses temas, que na época eram verdadeiros tabus. O que parecia uma brincadeira logo se tornou um movimento internacional, transformando o bigode em um símbolo de apoio, de luta e consientização, levantando fundos e, mais crucialmente, encorajando milhões de homens a cuidarem de si.

Inicialmente focado no câncer de próstata, o Novembro Azul rapidamente expandiu seu escopo. Hoje, ele serve como um farol para a saúde integral masculina, abordando temas variados como o câncer de testículo, doenças cardiovasculares e até a nossa saúde mental. A campanha nos lembra que cuidar da saúde não é sinal de fraqueza, mas de inteligência e força, e se traduz em profundo respeito à vida.

No Brasil, o câncer de próstata também exige especial atenção. Permanece como o segundo tipo de câncer mais diagnosticado entre os homens, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e com um número significativo de novos casos anualmente. A boa notícia é a alta taxa de cura, que pode ultrapassar os 90% quando o câncer é detectado em estágios iniciais. Infelizmente a procura tardia, ligada ao preconceito e desleixo, resulta em diagnósticos avançados e opções de tratamento mais limitadas.

As diretrizes das sociedades médicas, como a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e a European Association of Urology (EAU) 2025, reforçam a necessidade de uma abordagem personalizada para o rastreamento do câncer de próstata. Recomenda-se que homens a partir dos 50 anos realizem os exames de PSA e toque retal. Para aqueles com histórico familiar (pai ou irmão com câncer de próstata antes dos 60 anos) ou de raça negra, esse cuidado deve começar mais cedo, aos 45 anos. As diretrizes europeias indicam o início aos 40 anos para homens com mutações genéticas (um exemplo é o gene BRCA2-, já estudado extensivamente no câncer de mama), o que significa um avanço na individualização do cuidado.

É fundamental entender que o rastreamento não é uma sentença, mas uma ferramenta de proteção. A avaliação inicial pelo urologista pode levar a um “plano de acompanhamento individualizado” e baseado em ciência. Caso o risco de desenvolvimento de câncer de próstata seja baixo, talvez não haja a necessidade de intervenções imediatas e realização de exames anuais. As mesmas diretrizes ressaltam que um PSA inicial baixo, por exemplo, pode permitir intervalos maiores entre os próximos exames, personalizando o acompanhamento e evitando preocupações desnecessárias.

Se a prevenção é o escudo, a atividade física é a espada. A ciência tem nos revelado cada vez mais sobre seu poder inovador no combate ao câncer de próstata. Não se trata apenas de “ter boa saúde”, mas de mobilizar um verdadeiro “exército interno” capaz de atuar em níveis moleculares para inibir o desenvolvimento e a evolução da doença. Em estudos recentes, o exercício tem mostrado a capacidade de reduzir a severidade do câncer, de inibir a progressão tumoral e até mesmo a ocorrência de metástases, promovendo fenótipos de câncer menos agressivos. Isso significa que o exercício físico pode, literalmente, “mudar o comportamento” das células cancerígenas para as tornarem menos disseminadas.

Em pacientes com doença prostática avançada, por exemplo, e sob terapia de privação androgênica de testosterona (TPA), o exercício aeróbico e de resistência (realizado por 12 semanas) supervisionado melhorou significativamente a qualidade de vida, reduzindo a fadiga, melhorando a função cognitiva e a composição corporal, atenuando os efeitos colaterais prejudiciais da TPA. Isso não apenas melhora a experiência do paciente, mas impacta positivamente na adesão e na tolerância ao tratamento hormonal necessário dessa situação.

O impacto da atividade física é robusto e ocorre em nível molecular, celular e sistêmico, fornecendo uma complementação poderosa no plano de saúde de todo homem em tratamento. Nosso Novembro Azul nos convoca a uma visão ampla sobre a saúde masculina. Não se trata apenas de exames de toque e PSA, mas de um compromisso diário com hábitos saudáveis e fortalecedores ao nosso corpo e mente no combate a uma multiplicidade de doenças. 

Converse com seu médico, entenda seu perfil de risco e, acima de tudo, comece a se mover! Seja uma caminhada, uma aula de dança ou um esporte: cada movimento conta. Cuidar da saúde é um investimento vitalício, um ato de responsabilidade e amor. Pense no Novembro Azul como o ponto de partida para uma jornada de bem-estar que dura o ano todo. Sua saúde agradece!


Dr. Renato Panhoca é responsável pela Urooncologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo.

FOTO: DIVULGAÇÃO

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