“O futebol brasileiro estacionou”

“O futebol brasileiro estacionou”

28/04/2025 28/04/25

Nas transmissões dos jogos de Futebol da Globo, o comentarista Caio Ribeiro passa a impressão de ser um sujeito do bem. Mesmo quando critica mais fortemente um jogador ou técnico, nunca entra de sola. É sempre ponderado, cuidadoso. Ao vivo, a impressão se confirma. Simpático e atencioso, rapidamente estabelece um clima de camaradagem com o interlocutor e o bate-
-bola, quer dizer, a conversa, flui naturalmente. Não por acaso, é quase uma unanimidade no mundo do Futebol, eleito seguidamente o melhor em seu métier. É também uma celebridade virtual junto à garotada graças aos seus comentários no game FIFA Football. O traço surpreendente é que Caio é também um fino contador de histórias, colecionadas desde os tempos de jogador. Ele despontou em 1993, aos 18 anos, no São Paulo, como um promissor atacante: foram 90 jogos e 33 gols. Nos gramados, cumpriu uma trajetória de pouco mais de uma década que o levou à Itália, à Seleção Brasileira, a grandes clubes do País e à convivência com alguns dos maiores jogadores e técnicos do período. Depois, de um jeito aparentemente prosaico, trocou as chuteiras pelo microfone e marcou outro golaço. A seguir, um resumo da entrevista (e de algumas histórias) de Caio Ribeiro à revista Pinheiros.

Pinheiros Como se construiu a sua relação com o Pinheiros?
Caio – Tenho um carinho especial, uma ligação de família com o Clube. As minhas tias Cacilda, Lucila e Maria Helena fizeram parte do time de Vôlei do Pinheiros e da seleção brasileira entre os anos 1960 e 1970. Elas têm até busto no Clube. E o meu pai também jogou Vôlei pelo Pinheiros, foi campeão paulista em 1970. Sou associado há uns vinte anos. Comprei o título logo depois que me aposentei do Futebol. Pelo menos uma ou duas vezes por semana estou por aqui.

Pinheiros Parece que o seu passe é requisitado no Futebol pinheirense, não?
Caio – Ah, já joguei tudo: quadrinha, joguei no B e agora estou no C. Durante anos fui do Fluminense e atualmente visto a camisa do Napoli. De vez em quando, bato um Tênis, vou à academia. Também venho ver os meus afilhados jogarem e agora quero comprar um título para o meu filho, o João. Ele quer muito ficar associado, tem vários amigos no Clube.

Pinheiros Como você se transformou em comentarista?
Caio – O meu pai é médico e a minha mãe é professora aposentada. Eles sempre me cobraram um bom desempenho nos estudos. A coisa de saber construir uma frase, ter boa didática, boa escrita e tal. Então isso me ajudou muito na relação com os jornalistas. Sempre entendi a atividade da imprensa como um complemento e um aliado do meu trabalho e não como um inimigo, como alguns jogadores imaginam. Mas nunca pensei em ser comentarista nem me preparei pra isso.

Pinheiros E como aconteceu?
Caio – Ali por 2005, resolvei tirar uns meses de folga. Estava meio cansado do Futebol. Queria um tempo para analisar com calma as propostas que havia recebido. O ano seguinte era de Copa do Mundo, na Alemanha. Estava ali, naquela indefinição do que fazer, quando recebo a ligação de um jornalista amigo, o Diogo Aída, da Rádio Globo, perguntando se eu não iria voltar a jogar. Na brincadeira, respondi: “Cara, se tiver uma oportunidade para trabalhar aí na rádio, eu viro comentarista”. Aí, ele diz que o Oscar Ulisses (narrador) estava justamente procurando um comentarista. “Você tem interesse?” “Claro que não! Tô brincando”, respondi. Então ele retruca: “Mas posso só dar um toque para o Oscar?” “Pode. Sem compromisso, pode”, eu falei. E aí o Oscar acabou me ligando e fez o convite.

Pinheiros E você disse sim.
Caio – Na verdade, pedi um tempo pra pensar. Não era uma decisão simples. Tinha 30 anos, nenhum histórico de contusão grave, imaginava que ainda conseguiria jogar em alto nível por uns quatro anos. Fui conversar com meu pai, com colegas mais experientes. Ponderei que caras que ainda estavam jogando, como Romário, Bebeto, Edmundo, Ronaldo Fenômeno, Marcelinho Carioca, Rogério Ceni, não iriam demorar a se aposentar e virar comentarista era uma possibilidade para todos. Eles, por exemplo, tinham uma carreira no Futebol muito mais importante do que a minha. Se eu fosse executivo da Globo, por exemplo, contrataria todos eles. Ao passo que, se eu topasse o convite do Oscar Ulisses, sairia na frente deles.

Pinheiros E foi assim que o Futebol brasileiro perdeu um atacante?
Caio – Comecei a gostar da ideia de inaugurar um novo ciclo profissional. Como comentarista continuaria trabalhando com esporte, que eu amo, e teria tempo para me adaptar e estruturar essa nova carreira. Depois, as propostas que havia recebido no Futebol não eram financeiramente tão atraentes. Cheguei à conclusão de que era a hora da vidrada. Liguei para o Oscar Ulisses e aceitei o convite. E tratei de pagar uma promessa que havia feito ao meu pai.

Pinheiros Que promessa?
Caio – Eu me formei no ensino médio e, em vez de prestar vestibular, diante da perspectiva de subir para o time profissional do São Paulo, decidi me dedicar integralmente à carreira de jogador, interrompendo os estudos. Mas fiz um trato com o meu pai: prometi que faria um curso superior assim que encerrasse a carreira no Futebol. Então, comecei como comentarista na Rádio Globo e nos programas esportivos do SportTV, e, ao mesmo tempo, como aluno do curso de Gestão Esportiva da Faculdade São Judas, aqui em São Paulo, na qual me formei.

Pinheiros Como foi essa transição do campo para o microfone?
Caio – O rádio é uma grande escola. Foi lá que entendi como dosar o tempo dos comentários, de que maneira a gente deve falar para ser entendido pelo público. Aprendi muito e me diverti muito com o Oscar Ulisses. Na TV, comecei fazendo o programa Arena, com o Cleber Machado, e o Bem, Amigos, com o Galvão Bueno. Os dois foram muito importantes nesse meu início na televisão. Só fui comentar os jogos na TV com o convite da Globo para substituir o Casagrande, que havia se afastado para tratar do problema com as drogas.

Pinheiros E que tal analisar o desempenho de amigos com os quais você havia jogado?
Caio – Acho que tive uma boa aceitação logo de cara. Mas foi complicado acertar o tom dos jogos dos amigos. Tinha aquela impressão de que era muito bonzinho com eles ou que ficava em cima do muro. Sabia que esse era um preço que iria ter de pagar.

Pinheiros E você passava o pano?
Caio – Não é fácil achar o ponto da crítica. Por conta da vida de jogador, a gente convive mais com os colegas de time do que com a própria família. Estava falando de caras com quem, até ontem, divida o quarto na concentração. Então, tinha a preocupação em ser a voz dos jogadores dentro da imprensa, de passar uma visão que quem não jogou não tem. E isso nem sempre agrada a todo mundo. Com o tempo, você vai se soltando, vai calibrando melhor os comentários, entende com mais clareza o tamanho da sua caneta e o peso da tinta.

Pinheiros Em diversas edições do Pesquisão UOL, como na mais recente, de 2024, você foi apontado como o melhor comentarista de Futebol…
Caio – A aceitação do público é uma das coisas que me deixam muito orgulhoso, assim como o respeito dos profissionais do Futebol. Aconteceu muito de criticar a atuação de um jogador ou treinador no Globo Esporte, por exemplo, e, à noite, participar de um programa em que o cara era um dos convidados. E aí, nos bastidores, o sujeito reclamava: “Pô, você pegou pesado no Globo Esporte”. Nessas horas, respondia que a função do comentarista é essa. E que a minha crítica era sempre dirigida ao profissional, ao jogador ou ao treinador, nunca descambava para a esfera pessoal. Na maioria das vezes, a pessoa acabava reconhecendo esse cuidado. Sempre procuro fazer uma crítica construtiva. Nunca ataco a pessoa. Sei o quanto dói uma pancada injusta da imprensa. Não faço com os outros o que já fizeram comigo.

Pinheiros Você já levou muita pancada injusta?
Caio – Muitas vezes. Todo jogador, craque ou não, tem a sua fase difícil, e aí a gente sofre muita injustiça. Mas a gente vai criando casca. Comecei com cinco anos no esporte, me profissionalizei aos dezoito, foram treze anos de carreira em times no Brasil e no exterior, passagens pela Seleção Brasileira. Crítica faz parte do processo, ajuda a amadurecer. O problema é quando descamba pro lado pessoal, atinge a sua família, a sua honra. Isso eu não faço.

Pinheiros E tem as mentiras, não?
Caio – Muito, principalmente na época de jogador. De falar que eu estava em um lugar onde nunca estive, de sair com mulheres com quem nunca saí. Uma vez me ligaram dizendo que tinham ouvido no rádio a notícia da minha morte em um acidente de moto. Logo eu, que nunca dirigi uma moto na vida, sempre fui um cara muito tranquilo.

Pinheiros Mas tem jogador, como o Neymar, que acaba dando margem ao falatório, não é mesmo?
Caio – O Neymar, às vezes, dá margem para apanhar, sim. Mas, em geral, a gente pega muito pesado com ele. O que o Neymar faz no tempo livre, na folga, é problema dele. Não me meto nisso. Quero saber é do rendimento dele dentro de campo. E, dentro de campo, ele é craque. Agora, ele carrega o ônus e o bônus de ser uma figura pública, vigiada as 24 horas do dia.

Pinheiros O Telê Santana foi seu treinador quando você subiu para o time profissional do São Paulo. Era difícil ser jogador do Telê?
Caio – Foi em 1993, eu tinha dezoito anos, peguei o fim daquele timaço que foi bicampeão mundial em cima do Milan. Para mim, é o melhor São Paulo de todos os tempos: Zetti, Toninho Cerezo, Muller, Cafu, entre outros. O Telê era genial, bravo, exigente, o técnico mais fantástico com quem trabalhei. Mas o convívio não era fácil. Ele te tirava da zona de conforto o tempo inteiro, pegava muito no pé. Lembro de uma passagem muito emblemática do jeito dele. Eu tinha acabado de ser eleito o melhor jogador do Mundial Sub-20 e, logo depois, fui convocado pela primeira vez para a seleção principal. Chego pra treinar no São Paulo logo depois da notícia, vou pro campo e aí a moçada começava a fazer a maior festa, a me cumprimentar pela convocação. De repente, o Telê começa a gritar comigo: “Você não chegou a lugar nenhum, não conquistou nada na tua carreira. Você tá atrapalhando o treino, garoto. Chega de abraço. Vamos treinar sério!”. Fiquei arrasado com aquele esporro. Quando terminou o treino, o Cafu, que eu ainda nem conhecia direito, veio falar comigo. “E aí, juvenil, tá chateado com o quê?” “Pô, não é justo. Não fiz nada pra tomar aquela dura. Vocês é que vieram me cumprimentar”, respondi. E aí o Cafu me disse uma coisa que mudou a minha forma de ver o Telê: “Se o Telê briga é porque ele acredita em você. Se ele te dá bronca na frente de todo mundo, se ele é duro do jeito que foi, é porque ele vê muito potencial em você. Fica preocupado no dia em que ele parar de falar contigo”. Aí passei a querer tomar dura todo dia, né? Era o jeito de o Telê mostrar que gostava de você.

Pinheiros E você não ouviu o conselho do Telê quando saiu do São Paulo para a Internazionale, de Milão, certo?
Caio – Naquela época, anos 1990, o campeonato italiano tinha o peso que a Premier League tem hoje. Os melhores estavam lá. Eu tinha um pré-contrato com a Inter, mas surgiram ofertas do Ajax, da Holanda, e da Juventus, de Turim. As propostas eram parecidas, mas a da Inter era a melhor, inclusive para o São Paulo. Fui perguntar ao Telê o que achava. Para minha surpresa, ele aconselhou: “Vai para o Ajax”, que, dos três, era justamente o que eu não queria. O Telê justificou dizendo que eu era um jogador técnico, de movimentação, que dependia de jogo coletivo. No Ajax eu teria uma sequência de jogos, importante para entender o Futebol europeu e ganhar ritmo. Na Holanda, ele explicou, teria um nível de enfrentamento mais baixo, para depois seguir para um campeonato mais duro como o italiano. Ignorei o Telê e fui para a Inter, onde praticamente não joguei. Era moleque, tinha dezenove anos, queria jogar no melhor campeonato do mundo. E o melhor, naquele momento, era o da Itália. Hoje, olhando em retrospectiva, deveria ter ouvido o Telê.

Pinheiros Em compensação, você acabou indo para o Napoli, uma ótima experiência, não?
Caio – Esportivamente falando, tive dificuldade na minha passagem pela Itália. As coisas não aconteceram como eu imaginava. Mas fui muito feliz no Napoli. Adorava o clube, a cidade, as pessoas. Agora, no começo do ano, levei meus filhos pra conhecer Nápoles e fomos ao estádio assistir a um jogo. Adivinha? Napoli x Inter, que ficaram no 1 x 1.

Pinheiros Quero relembrar uma passagem quando você jogava pelo Flamengo. O jogo em que você, atacante, virou goleiro.
Caio – Ah, foi no Campeonato Brasileiro contra o Gama, em Brasília. O placar estava em 1 a 1, a gente já tinha feito as substituições possíveis, e aí o nosso goleiro, o Clemer, foi expulso. Alguém da linha tinha que ir pro gol e sobrou pra mim. Era goleiro nos rachões e, modéstia à parte, apesar do meu 1,76 m, pegava bem. Mas uma coisa é o rachão. Outra é ir pro gol num jogo valendo três pontos, televisionado, vestindo a camisa do Flamengo, o time da maior torcida do Brasil. Baita responsabilidade! Foi um dos dias de mais nervosismo da minha vida.

Pinheiros E você se saiu bem?
Caio – Os caras sacaram o meu nervosismo porque, logo no primeiro ataque, chutaram de longe, lá do meio de campo. Fiz a defesa em dois tempos. “Peguei a primeira”, comemorei, o que ajudou a acalmar. Os caras tinham um homem a mais, vieram pra cima com tudo, mas eu não tomei gol. Fiz boas defesas, uma delas saindo no pé do atacante. O jogo seguinte foi contra o São Paulo, no Maracanã. Estava no banco, a torcida começa a gritar meu nome. Entro, o jogo zero a zero e, no primeiro toque na bola, marco o gol da vitória. Foi a melhor semana da minha carreira. Caí definitivamente nas graças da torcida.

Pinheiros Você comemorou o gol contra o ex-clube?
Caio – Lógico! Estava defendendo as cores do Flamengo, que pagava o meu salário, me valorizava, naquele momento. Sou muito grato ao São Paulo, tenho um carinho enorme pelo clube, meu filho é são-
-paulino roxo, mas discordo dessa história de não comemorar gol contra ex-clube.

Pinheiros O Futebol anda chato?
Caio – O Futebol está quase insuportável. Não se pode fazer mais nada. Nada. Passar o pé em cima da bola, pedalar, comemorar gol, encarar a torcida… É claro que o jogador tem de entender e ter discernimento que uma atitude impensada dentro de campo pode respingar no comportamento do torcedor. Mas tem coisas que são do jogo. Quantas vezes entrei em campo debaixo de vaia, sendo xingado? Sempre encarei como uma demonstração da torcida adversária de que eu oferecia perigo. Por isso, queriam me desestabilizar de alguma maneira. Aí eu me motivava ainda mais, queria fazer gol e sair mandando beijinho pra torcida, dando tchauzinho.

Pinheiros É do jogo?
Caio – É do jogo. Na minha época de jogador o Futebol era mais divertido, não tinha essa história de torcida única. Por que eu não posso ir ao estádio assistir ao jogo do meu time? Por que o mundo do Futebol, as autoridades, são incapazes de garantir segurança ao torcedor? Temos que levantar a bandeira da segurança, assim como a do racismo, do sexismo, são brigas que valem ser brigadas. Mas tem uma turma da lacração que exagera demais, passa do ponto. É muito mimimi.

Pinheiros E o que aconteceu com o Futebol brasileiro? Perderam o respeito pela camisa amarela?
Caio – Essa é uma resposta difícil. Vejo diversos fatores aí. Primeiro, por uma questão econômica e social, continuamos a produzir craques, mas numa quantidade menor do que antes. Não se joga mais bola na rua, a várzea definhou. Por outro lado, o intercâmbio global fez o Futebol europeu, principalmente, evoluir demais. Eles aprenderam, abandonaram o jogo robotizado, cresceram taticamente, enquanto o Brasil estacionou, acreditando que basta o talento para resolver. Em 1958 e em 1962, a gente tinha Pelé e Garrincha; em 70, o Pelé e uma constelação; em 1994, o Romário, o Bebeto e vários grandes jogadores; em 2002, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Roberto Carlos, Cafu. Hoje, diferenciado mesmo, somente o Neymar. Mas temos grandes jogadores, como o Vini Júnior, o Raphinha, o Rodrigo. Discordo de quem diz que a seleção atual é mediana. O time é bom e o Brasil continua sendo um dos favoritos em qualquer competição em que entre. Mas não é mais o time a ser batido. Tem Argentina, Alemanha, França, Espanha, Inglaterra, Holanda, Croácia. O clube dos melhores cresceu. 

Pinheiros Você se transformou numa estrela do videogame FIFA Football. Que tal a experiência de comentar jogos virtuais de Futebol?
Caio – É uma loucura. De cada dez adolescentes ou crianças mais novas que vêm falar comigo, nove são por causa do FIFA. Devo essa ao Thiago Leifert, meu grande companheiro profissional, um dos caras mais brilhantes com quem já tive o prazer de trabalhar. Foi ele que me convidou para comentar os jogos do FIFA e me mostrou que esse era um meio para atingir um público muito maior do que eu poderia imaginar. O Thiago levou aquele jeito descontraído para o jogo e eu fui na onda. Nas gravações, a gente saía bastante do script original. E é o que faz a diferença. Quem joga quer algo além do lado tático e técnico. Foi um sucesso. O Thiago parou de fazer e eu continuei com o Gustavo Villani (narrador da Globo), também um craque. Acabei de renovar o contrato com a FIFA para mais três anos.

FOTO: DIVULGAÇÃO

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