Salto de qualidade

Salto de qualidade

05/03/2025 05/03/25

Júlia Soares, 19 anos, é a mais nova integrante da Ginástica Artística do ECP. A razão pela qual resolveu trocar o Centro de Excelência de Ginástica do Paraná (Cegin) e a cidade natal, Curitiba, pelo Esporte Clube Pinheiros e por São Paulo é uma só: “Quero evoluir”. Desde seu primeiro dia entre os pinheirenses, em 23 janeiro, Júlia sentiu-se acolhida, querida e apoiada. Para completar a sensação de que está em casa em sua nova casa, veio com ela a “segunda família”: as técnicas Iryna Ilyashenko, ucraniana que está à frente da seleção brasileira feminina de Ginástica Artística desde 1999, e Caroline Molinari. Ambas passaram a integrar o time de treinadores do ECP.

Com Júlia, a equipe da Ginástica Artística sobe de prateleira. Ela é um nome em ascensão no circuito e impressiona desde jovem. Aos quinze anos, entrou para o seleto grupo de atletas a ter um movimento homologado pela Federação Internacional de Ginástica (FIG). Trata-se do “Soares”, uma entrada na trave em vela seguida de meia pirueta. Júlia foi um dos destaques do Brasil nas Olimpíadas de Paris, no ano passado. Em sua primeira participação nos Jogos, conquistou a medalha de bronze por equipes, foi finalista na trave (terminou em sétimo) e cativou o público com sua energética apresentação no solo.

Na entrevista a seguir, Júlia relembrou o início na modalidade, aos quatro anos, inspirada pela irmã mais velha, as incontáveis horas–extras de treino e tombos para desenvolver o “elemento Soares”, o apoio da família nos momentos difíceis de sua trajetória, o lado influencer que contabiliza mais de três milhões seguidores nas redes sociais e os saltos que planeja fazer como atleta do Pinheiros.

Pinheiros O que a levou a se tornar atleta do Pinheiros?
Júlia – Tenho um carinho enorme por Curitiba e pelo Cegin. Foi onde comecei e construí a minha trajetória. Cheguei aonde cheguei por muita dedicação e por muito amor à Ginástica. A minha escolha pelo Pinheiros é justamente pelo amor à Ginástica, porque quero evoluir. O Pinheiros é um lugar especial. Mal cheguei e já estou amando tudo, as pessoas são incríveis! O Pinheiros é uma família, no sentido de a equipe ser unida, de todos torcerem por todos. Prezo muito por esse clima e o Pinheiros vai me ajudar muito nessa nova fase da carreira.

Pinheiros E, por falar em família, você trouxe também as suas técnicas, a Iryna (Ilyashenko) e a Carol (Molinari)…
Júlia – Com certeza. Elas estão comigo desde o início, quando comecei com quatro anos, são a minha segunda família, cuidam de mim. Queria muito compartilhar essa conquista, estar ao lado delas nesse momento tão importante, de mudança na minha vida e na minha carreira. Por isso, elas estão aqui comigo.

Pinheiros A família Soares também tem um papel crucial na sua trajetória, não?
Júlia – Muito, muito. Começando pela minha irmã, Giovana, minha grande inspiração. Fui para a Ginástica por causa dela (quatro anos mais velha, Giovana treinou no Cegin e acabou deixando a Ginástica pelo balé, modalidade da qual hoje é professora). Meus pais sempre nos incentivaram a praticar esporte. Meu pai trabalha na PepsiCo até hoje. Numa época, ele vendia no trabalho os brigadeiros que eu, minha irmã e minha mãe fazíamos. Era uma renda extra que ajudava a nos manter no esporte. A minha mãe abriu mão do trabalho na área da saúde para poder nos levar aos treinamentos, para nos acompanhar nas competições. Eu não chegaria tão longe sem o apoio deles. Tê-los ao meu lado nos momentos bons e, principalmente nos difíceis, foi o diferencial para conquistar os meus objetivos.

Pinheiros Você vai ficar longe da família morando em São Paulo. Como está encarando essa nova fase longe do ninho?
Júlia – É um momento difícil justamente por eu ser tão apegada à família, por sermos tão unidos. Mas aqui no Pinheiros terei novas as experiências, vou explorar novas oportunidades e minha família me apoia nessa decisão. Eles querem que eu cresça.

Pinheiros Quando você decidiu que queria mesmo ser atleta?
Júlia – Chegou um momento em que me dei conta de que havia evoluído muito. Eu era bem nova ainda, mas já realizava elementos com um grau de dificuldade de quem competia no adulto. Então, vieram os campeonatos brasileiros, as primeiras competições internacionais, os resultados, foi quando vi que a Ginástica seria a minha vida. Na verdade, desde muito pequena o meu sonho era chegar às Olimpíadas, e sempre segui firme nesse propósito.

Pinheiros Sua estreia olímpica foi nos Jogos de Paris, no ano passado. O que achou do clima na Vila Olímpica, do ambiente das provas?
Júlia – Foi uma experiência inesquecível chegar aos dezoito anos nas Olimpíadas. Eu sempre quis muito, me dediquei para que isso acontecesse e, quando você chega ali… Meus olhos brilhavam, sabe? Porque é uma coisa muito grande, é o sonho de todo atleta. Repassei os meus quinze anos de dedicação ao esporte, os dias difíceis, a rotina de treinos, tudo, e percebi que tinha valido muito a pena. Conheci cada canto da Vila. E poder competir junto com as meninas da equipe, estar ao lado de atletas que me inspiram, torcer por elas e elas torcerem por mim, puxa, foi lindo! Nós nos transformamos numa família e foi por isso que o resultado veio. Tem a ver com a dedicação de cada uma e a união de todos, atletas e técnicos. A medalha é uma construção também de todas as atletas que vieram antes, da Daiane dos Santos, da Daniele Hipólito, entre outras, que fizeram história e batalharam por uma medalha olímpica.

Pinheiros Vocês acreditaram que dava para chegar em uma medalha?
Júlia – A gente achava que era possível, porque em 2023 conquistamos o segundo lugar no Mundial. Mas a gente nunca vai a uma competição dizendo “Vamos ganhar, vamos ganhar”. Não é esse o pensamento. O pensamento é fazer o melhor, dar 200%, porque a gente treinou para aquilo acontecer. Nosso objetivo sempre é fazer o melhor e representar a bandeira do Brasil da melhor forma.

Pinheiros Mas quando vocês viram que a pontuação dava o bronze…
Júlia – Ah, aí eu chorei, chorei mesmo, sem me importar com as câmeras, se iria ficar feia, borrada. Aquele momento foi único. Vou levar para o resto da vida e falar dele com o maior orgulho sempre.

Pinheiros Em uma entrevista você disse que tem um leão dentro de você e que ele desperta quando está competindo. Como acontece esse processo, essa mobilização interna?
Júlia – Eu sou muito competitiva. Quando estou numa prova não estou competindo com as outras atletas para ser melhor do que elas. Sou eu contra eu mesma, a minha batalha é comigo. Nos treinos também é assim. Aliás, é mais difícil treinar do que competir. O treino é uma competição diária. E tenho esse leão dentro de mim. Tenho essa vontade de treinar, de querer aprender coisas novas, de ir além. E esse leão também aparece quando estou competindo porque eu sei que me preparei, sei do que sou capaz.

Pinheiros Como foi o processo de criação do “Elemento Soares”?
Júlia – Foi uma ideia da Iryna e da Carol lá em 2019. A trave, ao lado do solo, são os meus pontos fortes. Então, elas pensaram numa entrada diferenciada para trave, com potencial para se transformar em um elemento com meu nome. Topei na hora, porque sempre quis ter um elemento como a Daiane dos Santos, que, aliás, tem dois (o Duplo Twist Carpado, “dos Santos”, e o Duplo Twist Esticado, “dos Santos 2”). A partir de então, fiz muita hora extra depois do treino executando o movimento. O pessoal ia embora e eu continuava lá, treinando. Caí muito, me machuquei um bocado, mas valeu muito. Homologuei o movimento com quinze anos e estou entre as sete atletas do País que têm o próprio elemento. Essa é uma conquista minha, da Irina e da Carol. Sem elas eu não chegaria lá.

Pinheiros E vem aí um Soares 2 no solo?
Júlia – Gosto muito de solo e tem que ser muito criativo para conseguir um elemento na modalidade. Tenho outros objetivos antes de criar um Soares 2. Quem sabe lá na frente, depois de conquistar o que planejo.

Pinheiros Imagino que você se refira ao próximo ciclo olímpico.
Júlia – Sem dúvida!

Pinheiros Em 2022, você conquistou o bronze no individual brasileiro, em 2023 foi prata e, em 2024, ouro. O próximo é o título mundial?
Júlia – Eu trabalho para ser um dia a melhor do mundo. Não é fácil. Tem dias que o corpo não quer, mas eu vou em frente, com muita dedicação sempre. 

Pinheiros A Rebeca Andrade é a sua inspiração?
Júlia – Sem dúvida. É lindo de se ver aonde ela chegou e o que ela representa para a Ginástica Artística. A Rebeca é referência para mim e para o mundo.

Pinheiros Você tem quase três milhões de seguidores nas redes sociais. Como você lida com essa responsabilidade?
Júlia – É muito bom ser reconhecida, ser olhada como inspiração. E eu me divirto com a interação pelas redes. Sei da minha responsabilidade e por isso sempre procuro fazer o meu melhor, procuro representar a bandeira do nosso País com o maior orgulho e da melhor forma. Fico feliz com essa responsabilidade junto a tantas pessoas.

JULIA SOARES, ENTREVISTA, 23jan, 2025 | Esporte Clube Pinheiros | Foto: RICARDO BUFOLIN / Panamerica Press / ECP

FOTO: RICARDO BUFOLIN/ECP

Financeiro