Teatro é um grande sucesso do Clube

Teatro é um grande sucesso do Clube

Conheça a história da dramaturgia pinheirense e seus principais expoentes

30/10/2025 30/10/25

A frase “mente sã, corpo são” vem da expressão latina “mens sana in corpore sano”, que significa “uma mente sã em um corpo são”. Foi escrita pelo poeta Juvenal, um autor romano no final do século 1, em sua obra Sátiras. Essa frase se aplica com perfeição ao que o Esporte Clube Pinheiros oferece aos seus associados: muitos esportes e uma área cultural fervilhante, com foco no teatro.

O Grupo Teatral Pinheiros (G. T. P.) nasceu em 1958 e, na época, foram encenadas várias peças. Elas foram apresentadas nos teatros João Caetano e Leopoldo Froes e, mais tarde, na Sede Social (onde hoje funciona o restaurante) e no palco do Salão de Festas. O auditório foi inaugurado apenas em 1979. 

No início, o grupo teatral contou com a participação de nomes que se tornaram consagrados, entre eles Georgia Gomide, que era associada, e Tarcísio Meira. Eles começaram a encenar sob a direção de Evaristo Ribeiro, sendo que a primeira peça que fizeram, ainda em 1958, foi A hora marcada, de Isaac Gondin Filho.

Hoje, quase 70 anos depois, o teatro do ECP está mais forte do que nunca. Com cursos para associados a partir de 3 anos, envolve pelo menos 250 pessoas e realiza 6 peças por ano, sendo 4 no palco e 2 itinerantes, encenadas em diversos locais dentro do Clube. “Também temos as leituras encenadas”, conta Beto Fazilari, diretor-adjunto do Teatro.

Tudo é gratuito para os associados, tanto os cursos quanto as peças. “Temos uma verba anual e, com ela, fazemos tudo”, explica. Além do cargo executivo, Beto e sua esposa, Cristina, são atores há 20 anos. “Começamos a fazer teatro aqui no ECP como uma válvula de escape, para nos recuperarmos do estresse do dia a dia”, explica. Ele é engenheiro civil e Cristina é médica.

O associado José Roberto Giusti é o ator que está no grupo do Pinheiros há mais tempo. Aos 86 anos e com 74 peças no currículo, ele conta que começou a atuar no Clube em 1995, levado por Silnei Siqueira, o diretor que impulsionou o teatro. Sua primeira peça no ECP foi Este ovo é um galo.  Antes, porém, já tinha feito peças com grandes atrizes no circuito comercial, como Maria Della Costa.

A principal diferença que ele nota entre o seu início e agora é o estudo. “Hoje as pessoas estão se preparando mais, os cursos são bem importantes”, diz. Outra observação que ele faz é sobre o clima de coleguismo entre os atores e atrizes. Ele ressalta a importância de Silnei, que formou um grupo forte de diretores e incentivou a criação dos primeiros cursos.

Um desses diretores é Ednaldo Freire, que chegou ao ECP em 1996, também levado por Silnei, que foi contratado em 1980 e em meados dos anos 1990 modificou toda a estrutura, dando um novo desenho à parte cultural. Ednaldo conta que uma de suas primeiras funções foi fazer uma espécie de inventário dos participantes, melhorando a estrutura. “Até então, as encenações eram reproduções de peças de sucesso”, diz. “Nosso objetivo era tornar o teatro o mais profissional possível, mais autoral.”

As novas gerações foram chegando, pois foram dadas mais oportunidades aos associados, que puderam entrar para a trupe. “Aí começaram os cursos, tanto para quem queria atuar quanto para quem preferia as atividades extra, como maquiagem, iluminação e cenografia.”

O diretor explica que o teatro sempre foi bastante prestigiado pelos associados. “É um lazer cultural que eles apreciam bastante, as peças estão sempre com lotação esgotada.”

O diretor teatral pinheirense Ednaldo Freire. Foto: Arquivo Pessoal


NOVO CURSO PARA ATORES E NÃO ATORES

A partir do próximo ano, Ednaldo Freire vai coordenar um novo curso de teatro. “Ele será voltado para o associado que sempre quis ser ator e nunca teve coragem”, explica. “Acredito que será muito bem-vindo pelos mais idosos, que até agora não tiveram oportunidade.”

Ele lembra que o principal objetivo do curso não é formar atores, mas fazer com que os alunos se expressem. “Será um curso livre em que falaremos não só das origens do teatro, mas de coisas básicas para que todos possam desenvolver seu lado artístico.” O curso ainda está sendo alinhavado, mas Ednaldo acredita que terá uma ou duas aulas semanais.

Beto Fazilari, diretor-adjunto do teatro, lembra que esses cursos servem também para a pessoa usar o aprendizado em seu dia a dia, seja na vida profissional ou pessoal. Ele cita como exemplos do que o teatro pode oferecer a postura do corpo, tão importante em reuniões, o tom de voz e diminuir a inibição. “O teatro pode ser um grande aliado na vida das pessoas.”


Encenação da peça Footloose, parte da programação dos Festejos de 126 anos do Clube

FOTO: RAFAEL DE FREITAS/ECP

O SUCESSO DOS MUSICAIS

Em 2004, Carlos Mira, que é associado do Clube desde criança, chegou ao grupo de teatro. Gostou tanto que foi ficando, trabalhou como ator em muitas montagens. Até que, em 2014, dirigiu a sua primeira peça, com adultos. Em 2016, começou a dirigir musicais. Foi ele quem idealizou as peças Mamma Mia!, Grease e Footloose, todas com muito sucesso, plateia lotada e dias extras de apresentação.

“Levei para o palco tudo o que eu tinha feito ao longo da vida”, conta. “Estudei Desenho Industrial, sempre participei de bandas e atuei como ator em peças com muitas pessoas”, explica. “E isso tudo me levou aos musicais”, acredita. Suas peças, por exemplo, sempre têm banda ao vivo. Ele também é responsável pelos cenários.

Carlos Mira acredita que a integração entre as artes é importante, por isso, quando possível, coloca o pessoal que faz dança no Clube em suas peças. “Em Footloose, levei vinte meninas da dança para o palco, além do elenco teatral.” Seus musicais contam também com a participação de adolescentes dos cursos. “São apresentações grandiosas, sempre com muita gente no palco.”

Carlos Mira afirma que trabalhar com artistas amadores é excelente, pois eles estão lá porque gostam do que fazem, sem obrigação. “Lembro que Silnei Siqueira dizia que preferiu ficar só no Pinheiros, trabalhando com amadores, do que no circuito comercial, onde tinha muito ego”, conta. “Ele dizia que no teatro amador as pessoas fazem tudo por amor à arte, não para virar artista de TV.”

Por causa do sucesso dos musicais, o diretor vê com bons olhos os cursos para teatro musical existentes no grupo. Quem coordena o Teatro Musical – Les Arts é Letícia Orfali. “As aulas são divididas em grupos, o baby, o pré-teen e o teen”, explica, acrescentando que dá aulas no Pinheiros desde 2002.

A turma baby reúne crianças de 3 a 6 anos. O pré-teen, de 6 a 14 anos. O teen, de 14 a 16 anos. Este ano, no total, são 85 alunos. Ao longo do curso todos aprendem técnicas de dança, canto e de interpretação, com atividades de acordo com a idade. “A ideia é que as crianças se eduquem pelo palco”, diz. A cada ano, no fim do curso, os grupos criam e encenam uma peça. Sempre um sucesso!

Turmas Baby encenando a peça Trolls, em 2025

FOTO: DIVULGAÇÃO


FOTO: ARQUIVO PESSOAL

NOS PASSOS DO PAI

Silnei Siqueira foi tão importante para o desenvolvimento da área cultural do Pinheiros que, em 26 de agosto de 2024, o ECP decidiu homenageá-lo dando seu nome ao auditório. Homenagem mais do que merecida, de acordo com todos os envolvidos com a atividade teatral, sejam peças ou cursos.

Além de marcar seu nome, Silnei, que faleceu em 2013, foi o responsável por levar sua filha, Maria, aos palcos do Pinheiros. Ela começou a atuar em 1989, ainda adolescente, nove anos após o pai assumir o teatro. “Minha primeira peça foi Gata Borralheira”, lembra.

Como decidiu levar o teatro a sério, o pai a aconselhou estudar. Ela foi, então, para o Célia Helena Centro de Artes e Educação, onde ficou cerca de quatro anos. Depois, voltou para o Pinheiros. “Aí, ou eu estava trabalhando como atriz, ou era a assistente do meu pai”, conta. Ela lembra que, no início, os ensaios duravam seis meses até a apresentação. Hoje o tempo é menor, pois há mais peças. “Precisamos de um segundo teatro”, brinca.

Atualmente Maria trabalha como diretora e também é responsável pelo Curso Sênior, voltado para pessoas com mais de 60 anos. Para este ano, ela está preparando os alunos para uma leitura encenada. “Os alunos são ótimos, mas ficam com medo de esquecer o texto e, por isso, optamos por uma leitura encenada, assim eles se sentem mais seguros.” Porém, acrescenta: “Tenho certeza de que todos já decoraram o texto, que nem vão ler”.


LAZER ARTÍSTICO PARA ADOLESCENTES

Há 25 anos no Pinheiros, Edson Gon é o responsável pelas aulas de teatro para a faixa etária de 7 a 13 anos, com duração de um ano. No primeiro semestre os alunos aprendem técnicas teatrais. No segundo semestre, montam uma peça para ser encenada no fim do ano. O diferencial é que são os próprios alunos que escolhem o tema. Definido o tema, vão improvisando e criando a peça, até chegar ao texto final.

Mas se engana quem pensa que é um curso focado apenas na interpretação, para formar novos atores. “É muito mais uma espécie de lazer artístico, os alunos têm de ter prazer em participar das aulas”, explica Gon.

Desde que iniciou as aulas, Gon calcula que aproximadamente mil adolescentes participaram do curso. Antes da pandemia, conta, a cada ano eram cerca de 30 alunos por ano. Agora, são de 15 a 20.

“O teatro é muito importante para eles, pois dá a noção da educação do sensível”, diz. “Eles entendem como se relacionar, o que pode e não pode fazer”, explica. “O curso é um grande instrumento para sensibilizar os alunos.”

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